A FALÁCIA DA FACILIDADE DA FOTOGRAFIA

Falar deste tema pode tornar-se num assunto mais cabeludo que complicado, uma vez que hoje em dia praticamente toda a gente tem uma máquina fotográfica em casa (ou na mão) e consegue tirar fotografias. Tecnicamente fazer uma fotografia hoje em dia é fácil e esse ato já não surpreende como há 100 anos atrás. Mas se toda a gente alegadamente tira boas fotografias com um telemóvel barato e uma câmara profissional, onde está a diferença, ou simplesmente não haverá diferença nenhuma.


Diferença existe certamente, está numa curva e começa logo pelo equipamento e em que segmento do mercado se encontram. Apesar de muita inovação e tecnologia relacionada com a fotografia estar presente em praticamente todas as gamas de câmaras, existem diferenças ao longo da curva e principalmente no topo como se pode ver neste gráfico chamado de “S-Curve”, que representa uma função sigmoide, originária da matemática aplicada amplamente em economia e computação que irão ser determinantes no resultado final da fotografia.


Esta curva representa muitas estratégias de marketing usadas por praticamente por todas as empresas, direi, para poder dividir o mercado em diversos segmentos criando caixas em que o cliente pode ser “separado”. As empresas assim têm mais facilidade em estudar o cliente e o que precisam nas diferentes áreas em que o produto pode ser aplicado ou usado, condicionando o estilo e a qualidade da própria arte fotográfica nos diferentes segmentos. Sendo assim, as máquinas fotográficas estão segmentadas desta maneira: na maior parte da curva o público em geral recebe quase todas as inovações tecnológicas que o produto oferece, em que a utilização requere menos aprendizagem, esforço, tempo e conhecimento e efetivamente o público consegue tirar fotografias suficientemente razoáveis, fotografias essas que servem para a maior parte dos usos a que se destinam, que são os equipamentos ditos de entrada e gama média.


Os segmentos mais profissionais ou de nicho, semi-profissionais e profissionais, se repararmos, ficam no topo da curva e já requerem um esforço, tempo, conhecimento, performance, para não falar do preço, consideravelmente mais elevados e complexos e tecnicamente próximos do limite em termos de inovação. Existem sempre casos raros e fora da caixa e alguma sorte à mistura, mas se aplicarmos esta curva a tudo e todos podemos perceber que fazer fotografia de qualidade e única requer todos estes fatores no topo da curva. As empresas sabem disto e colocam os seus produtos e funcionalidades do produto estratégicamente ao milimetro nesta curva criando fatores decisivos que vão melhorar fatias ou aspetos de qualidade na fotografia final.


Agora num espaço de competitividade é certo que as empresas vão melhorar / apresentar / esconder ou adiar certos fatores em detrimento de outros para compensar ou ganhar quota de mercado o que pode baralhar ou frustrar o cliente final e obviamente para criar termos de comparabilidade onde a qualidade final com que as fotografias podem ser apresentadas seja sempre debatível, não... errado, seja sempre diferenciador, mas a curva estará sempre bem definida e bem estudada pelas empresas, o fotógrafo será sempre o último a perceber onde estão esses fatores determinantes a não ser que consiga... estudar continuamente, poder comparar produtos lado a lado e ter uma longa longevidade e prática sobre o assunto, aliás, sobre todos os assuntos que englobam a arte da fotografia, não só sobre o equipamento.


A segunda grande diferença, entre fazer fotografia dita suficiente e razoável e a tecnicamente profissional, é o conhecimento da própria arte fotográfica, das técnicas utilizadas, de conceitos como o enquadramento e a composição, da dupla ou longa exposição, da desfocagem em movimento, da profundidade de campo e simetria, do estudo da cor e do preto e branco, da regra dos terços ou da probabilidade, do uso das texturas e padrões, do espaço negativo, dos pontos de vista às linhas de fuga, da simplicidade ao minimalismo, da arte do posicionamento em modelos ou conceitos como o timelapse, hyperlapse, tilt-shift ou o pinhole entre muitas mais.

Compreender a luz é o fator mais importante da arte fotográfica. – Foto: Mauro Rodrigues

Mas o mais importante é definitivamente perceber como se comporta a luz e conhecer os seus diversos truques, até ao nível da ciência. Isto aplica-se obviamente no terreno, no ato de fotografar mas depois vem a pós-produção que direi é uma área tão importante como a primeira. Porque na pós-produção existe muita técnica antiga e moderna que pode ser aplicada e usar diversos softwares de computador, que hoje em dia, ajudam a refinar, corrigir e a engradecer muitos dos aspetos finais da fotografia, um passo que requere no geral anos de aperfeiçoamento e constante atualização em termos de estudo e conhecimento.


Finalmente o terceiro grande factor decisivo na criação de excelente arte fotográfica é o tempo despendido em estudar o sujeito a ser fotografado, sejam modelos, pessoas reais ou animais no seu ambiente, saber antecipar e conhecer a sua história, o tema em estudo ou a área geográfica e as condições meterológicas em que se encontram, ou então saber criar e manipular tudo num ambiente de estúdio, com adereços, roupas, objetos e saber orientar por exemplo outros talentos como por exemplo o da maquilhadora ou estilista. Saber orientar os aspetos técnicos da produção ou a relação entre todos os intervenientes além de ter a capacidade de resolver problemas que surgam durante todo este processo. Saber antecipar isto tudo requer trabalho e dedicação e alguns poderão dizer sorte, mas até a sorte pode ela ser igualmente antecipada.


Agora muitas pessoas poderão querer cortar atalhos em todos estes fatores e podem-no fazer mas os resultados 95% das vezes irão sair sempre deficientes em algum lugar, garantido. E os artistas são os primeiros a perceber exactamente isso, o que torna especialmente difícil gerir todos estes fatores e por vezes explicar a pessoas leigas na matéria, o porquê da mentira da facilidade da fotografia com contornos mais profissionais, em que é pedido ao fotógrafo para num estalar de dedos como o personagem Thanos faz no filme em Avengers: Infinity War, parecer que seja fácil apresentar um produto de qualidade.

ESPAÇO ALFA - Artigo de Mauro Rodrigues publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul de junho de 2021

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