SACRIFÍCIO PELA BELEZA

Numa altura em que a fotografia se tornou tão banal e presente na vida das pessoas, vale a pena falar um pouco de sacrifício. A maior parte dos fotógrafos que conheço procura a beleza das coisas que os rodeiam, um processo que requer um sacrifício elevado para a obter, às vezes até demais, ao ponto de alterar o nosso estilo de vida radicalmente.

Libélula de nervuras‑vermelhas / Red-veined Darter Dragonfly

Vejamos então em pormenor a macrofotografia e a fotografia de Natureza. Existem muitos lugares e situações que podemos explorar ao máximo e obter imagens únicas, mas curiosamente muitos fotógrafos iniciantes procuram imediatamente o mais palpável, estou a falar de paisagens, flores, texturas e insectos. Estes bichos de que a maior parte das pessoas fogem ou os acham simplesmente repugnantes, são exactamente o motivo de fascínio para o fotógrafo. Porquê? – Dizem vocês! Será por causa da beleza? Sim, na realidade existem insectos bastante bonitos, enquanto outros em contrapartida, parecem vindos de um filme de terror, mas o fascínio pelas formas, cores e pelo bizarro serão sempre motivos que os fotógrafos vão explorar, para de alguma forma impressionar o público em geral e passar a ideia de que a Mãe Natureza é cheia de maravilhas e que vale a pena preservá-la.


Mas o que eu acho que leva os fotógrafos a procurar estas pequenas criaturas é certamente o desafio excruciante que é capturar a imagem perfeita delas. É difícil, recompensa no final, mas só aqueles que se sujeitam ao sofrimento é que realmente retiram alguma glória.

Para terem uma ideia, começa logo pelo equipamento. Aqueles que pensam que conseguem capturar alguma coisa verdadeiramente macro com uma lente que não é macro podem tirar o cavalinho da chuva, porque o sentido real da palavra “macro” é 1:1, ou seja, a objectiva tem de ser capaz de capturar o insecto a 100%, encher visualmente a tela toda e ir mais além, ver os pormenores dos olhos, a segmentação do abdómen, a configuração das patas, verificar a complexidade das asas e até mesmo contar o número de pêlos que o bicho tem. E isso custa dinheiro.


A Canon EF 100mm/2,8 L IS USM Macro e a Canon MP-E 65mm f/2.8 1-5x, que são objectivas dedicadas, verdadeiramente macro custam perto dos mil euros cada.

Qualquer pessoa que entenda minimamente de fotografia, tem de possuir igualmente equipamento especializado que produza luz adicional que irá compensar as sombras causadas pela luz do sol, estou a falar obviamente do Flash que para macro tem obrigatoriamente de ser diferente dos outros. O excelente Canon Macro Twin Lite MT-24EX Flash custa cerca de 700 euros. Entre os outros acessórios igualmente importantes temos filtros polarizadores, tripé, tubos de extensão para obter ainda mais magnificação, botas de borracha e um colete para carregar o material todo.


Mas que loucura é esta? É este o preço a pagar pela captura da beleza destes animais. É certamente este dinheiro e possivelmente ainda mais, porque a especialização e o conhecimento leva o fotógrafo a patamares ainda mais elevados. Por isso é melhor que tenham alguma forma de obter algum retorno desse dinheiro porque o sacrifício é elevado.

E fisicamente? Sim, já me estava a esquecer da segunda parte. Acordar antes do sol nascer e aproveitar o facto deles, como animais de sangue frio, se mexerem muito menos nas primeiras horas do dia. A fatiga da procura, porque os mais interessantes são também os mais difíceis de encontrar. Lidar com as flutuações do vento (fotografar em movimento é obviamente difícil). Percorrer os montes, a lama, os pântanos, rios e lagos são tudo pormenores que intensificam o sacrifício da procura pela beleza na macrofotografia e pela Natureza. Enfim, isto só mostra o quanto estamos desligados dela, é ao mesmo tempo tão bela e tão cheia de sacrifícios.


ESPAÇO ALFA - Artigo de Mauro Rodrigues publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul de julho de 2011

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